sábado, 17 de outubro de 2015

As perguntas que não devem ser nomeadas

É uma sensação meio estranha quando você tem um match no tinder pela primeira vez - um misto de animação, elevação da autoestima, e, no meu caso, uma boa dose de desespero: putz, a pessoa também me curtiu! E agora, o que eu falo? Como eu começo uma conversa com ela?

No caso da pessoa em questão, foi ainda mais difícil, pois ela não tinha nenhuma descrição de perfil com a qual eu pudesse trabalhar. Resolvi, então, começar pelo tradicional "Oi :)", esperar a resposta dela (também de "Oi") e perguntar "Tudo bem?" em seguida. Nesse caso, deu certo - embora, aparentemente, para algumas pessoas, você já esteja selando o seu destino de "descombinado" no instante em que começa uma conversa assim -, mas, conforme fui dando match com outras pessoas, lendo suas descrições e tentando conversar com elas, um certo padrão começou a se formar diante dos meus olhos: eu percebi que existem algumas perguntas que devem ser evitadas o máximo possível. Curiosamente, essas perguntas são as primeiras perguntas que você pensaria em fazer quando quer conhecer uma pessoa.

Faço pós em filosofia, então, como alguém que está no meio acadêmico, gosto de saber o que as pessoas estudam e por que áreas se interessam. Mas, aparentemente, perguntar para alguém o que ela estuda é chato, é "frowned upon", ao menos se você faz essa pergunta diretamente ou logo no início da conversa. O que impõe um obstáculo um tanto desafiador: se quero realmente conversar com a pessoa e conhecê-la, me ajudaria um bocado saber pelo que se interessa, no que ela decidiu se formar, que tipo de coisa a estimula intelectualmente, não?

Bom, se é uma espécie de tabu perguntar o que a pessoa estuda, se faz faculdade e que faculdade faz, é fácil inferir, a partir daí, que o mesmo vale para perguntar com o que a pessoa trabalha - o que, mais uma vez, é um obstáculo bastante imponente para a conversa. Poxa, como puxar uma conversa realmente interessante sobre a pessoa que quero conhecer, se não posso saber o que ela decidiu fazer da vida, se não posso perguntar com o que ela trabalha para perguntar depois se ela gosta do trabalho, por que ela decidiu trabalhar com o que trabalha, e assim por diante? E, ainda assim, pode-se sentir a nuvem cinzenta se formando acima da conversa quando você faz esse tipo de pergunta.

Assim, para mim, parecia, por algum motivo estranho, que as melhores perguntas para começar uma conversa eram justamente aquelas que eram as mais mal vistas, as mais tabu, aquelas que não deviam ser nomeadas. Nada de perguntar o que você estuda, com que você trabalha, o que você gosta de fazer, que tipo de música você gosta, todas as perguntas aparentemente mais fáceis e melhores para começar uma conversa.

Dentre todas essas perguntas tabu, só teve uma que eu consegui entender facilmente por que era tabu: a pergunta "onde você mora?" Pra mim, fazia todo sentido - afinal, o que me diz da pessoa onde ela mora ou não? (Bom, talvez diga mais para outras pessoas, mas, como alguém "geograficamente deficiente", esse tipo de informação dificilmente me diz algo). Não fico sabendo nada de mais interessante sobre a pessoa, e essa pergunta serve apenas de "filler" para a conversa.

Mas, depois que me dei conta: acontece que a razão por que essa pergunta é tabu é a mesma por que todas as outras perguntas também são: porque, na verdade todas elas servem como "filler" para a maior parte das conversas no tinder.

Para mim, pouco acostumado a conhecer casualmente outras pessoas e tentar conversar com elas, não é enfadonho (ainda) que me perguntem o que eu estudo, com que eu trabalho, e mesmo onde eu moro. E, eu, que estou a pouco tempo nesse meio, faço as duas primeiras dessas perguntas com sinceridade, porque realmente me interesso em saber e porque quero desenvolver assunto para a conversa a partir daí.

Mas, para quem está nesse meio a muito mais tempo do que eu, fico imaginando como deve ser enfadonho e quantas vezes essas perguntas devem ser feitas, quantas conversas repetidas e infinitas sensações de déjà vu as pessoas devem ter ao se verem diante das mesmas perguntas e, mais do que isso, sendo feitas sem nenhum verdadeiro interesse pela resposta, apenas servindo de "fillers". E, como você está falando com muitas pessoas ao mesmo tempo, é natural que você selecione e só dê atenção àquelas que se destacam fazendo perguntas diferentes das que todo mundo está fazendo. Afinal, assim,elas parecem mais interessantes e mais interessadas do que aquelas pessoas que estão apenas fazendo as mesmas perguntas "filler" de sempre.

Entretanto, me pareceu que talvez haja também outra razão para que essas perguntas sejam tabu: o fato de que, quando não são fillers, elas são, pelo contrário, muito diretas, muito íntimas: elas perguntam muito sobre a pessoa, elas exigem que a pessoa se abra muito rapidamente, que se revele rápido demais, que dê informações demais sobre si.

Assim, pensando sobre toda essa situação, conclui que, afinal, por um lado, faz sentido que essas perguntas sejam tabu: de fato, elas acabam se tornando muitas vezes fillers, que tornam a conversa nada interessante e artificial, porque não há nenhum interesse verdadeiro por trás delas. Nesse caso, faz sentido evitar essas perguntas, para não gerar tal impressão e para ser capaz de mostrar verdadeiro interesse.

Mas, por outro lado, pensando na outra razão pela qual tais perguntas poderiam ser tabu, não consigo ainda não ficar frustrado: pois ela significa, pelo contrário, que as pessoas não querem que você se interesse demais. O que me pareceu, em um primeiro momento, absurdamente incompreensível: qual é o problema com essas pessoas, que não querem que eu demonstre interesse pelo que elas fazem, pelo que elas sentem, pelo que elas pensam, pelo que elas são? Não é justamente isso que as pessoas buscam aqui - alguém que esteja interessado nelas?

E foi aí que eu me dei conta daquilo que ainda não consegui bem processar: que muitas das pessoas do tinder estão, justamente, buscando algo casual. Elas não querem que você demonstre interesse demais, porque elas não querem nada demais - elas querem alguém pra sair uma, duas, algumas vezes, para pegar e pra ficar, sem que isso vire algo sério. Elas não querem dividir tanto assim com você - e não têm nenhuma intenção de fazê-lo em qualquer instante presente ou futuro. Elas não estão interagindo com você tentando gerar paulatinamente uma proximidade que possa se tornar cada vez maior, tentando descobrir se vocês se "conectam", porque elas não querem ter qualquer conexão mais profunda com você - elas querem alguém para pegar e se divertir e depois seguir adiante, conhecer outras pessoas e fazer o mesmo com elas, sempre sem expectativa de compromisso ou de que se torne compromisso - para elas, o todo da experiência é a experiência casual.

Por um lado, me dar conta disso foi um tanto libertador. Me fez me dar conta de que eu mesmo posso me relacionar com as pessoas casualmente, sem me sentir culpado se eu não quiser nada mais profundo com elas, e sem ter que ficar imaginando a hora toda que elas mesmas tem sempre alguma expectativa de que as coisas se tornem algo mais sério. Pelo contrário, aparentemente, geralmente, as expectativas nesse sentido são bastante baixas e, realmente, não estão de modo algum no primeiro plano, ou mesmo em qualquer plano.

Por outro lado, isso me deprimiu um pouco. Porque, para mim, ainda, querer sair com uma pessoa é querer sair porque a acho interessante, porque quero conhecê-la melhor, porque quero poder ser transparente e sincero com ela sobre mim mesmo e conversar abertamente com ela sobre mim, sobre ela, sobre o que nós somos, pensamos e sentimos. Eu gosto de pessoas, e gosto de conhecê-las. Por isso, é frustrante para mim quando elas não querem que eu as conheça, quando elas querem menos, e não mais interesse de minha parte, quando elas esperam que eu, justamente, me interesse menos por elas como pessoas e que tenha um interesse mais superficial e mais efêmero por elas. É esse estranho mistério do querer menos, e não mais interesse, que ainda é difícil para mim processar, e que está na base dos problemas que tive com as minhas experiências "casuais" até agora (fica para outro post dizer quais elas foram).

Ainda assim, reconheço que esse fato do menos interesse tem algo a me ensinar: pois é verdade que preciso aprender que não é necessário que tudo se torne algo sério, que eu me interessar por alguém não implica que eu tenho que me interessar completamente por alguém, e que eu não preciso me relacionar com outras pessoas sempre com a intenção subjacente de me relacionar seriamente com essas pessoas.

Mas, por outro lado, isso também me ensina algo de frustrante e decepcionante sobre as pessoas: o seu medo primário de interesse demais. Pois, muitas vezes, parece que as pessoas sequer se perguntam se não estão, na verdade, interessadas por mais, e não por menos;  elas têm medo do interesse por mais, mesmo quando elas na verdade têm esse interesse. Mais do que isso: elas tem um medo generalizado de ter interesse por mais, de ter interesse demais, de ter mais do que um certo nível de interesse, medo, em suma, de que o interesse realmente as preencha. De modo que, se as perguntas que não devem ser nomeadas viram tabu, isso se deve não apenas ao medo de que elas preencham falsamente o vazio de uma conversa, mas também, e talvez ainda mais, ao medo de que elas preencham de fato esse vazio.

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